sábado, março 27, 2010

Longe do Paraíso ou o primeiro posto do nosso novo colaborador

Não vou ficar escrevendo muito porque o post não é meu e sim do Junior, que já foi mencionado outras vezes por aqui. Ele escreveu sobre Longe do Paraíso (Far From Heaven) e dará continuidade a lista do Todd Haynes. Esse esquisitão do lado.

Como ele ainda, vergonhosamente, não tem um login, srsrs, eu estou postando o texto dele, mas todo o crédito seja dado ao garoto. Vamos ao texto:

Longe do Paraíso


Primeiro gostaria de dizer que achei muito legal mesmo o Walter ter me chamado para fazer uns posts no seu blog! Segundo que os filmes aos quais comentareis são trabalhos que eu realmente admiro muito, Longe do Paraíso e Não Estou Lá de um dos diretores mais bem sucedidos do New Queer Cinema norte-americano e tema dessa lista, Todd Haynes.


Mas bem, hoje eu venho para comentar sobre Longe do Paraíso, o quarto filme do diretor, que também assina o roteiro aqui, lançado em 2002 e que ganhou grande apoio da crítica e das premiações. Primeiro levando Julianne Moore a ganhar a Copa Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza em 2002 e também no mesmo festival um prêmio especial para a fotografia de Edward Lanchman. E posteriormente colhendo muitas indicações em prêmio como Globo de Ouro, Oscar e levando as principais premiações no Independent Spirit Awards do ano de 2003 (Filme, Diretor, Atriz, Ator Coadjuvante e Fotografia). E não é para menos, o filme que Todd Haynes construiu é um vislumbre visual, técnico, criativo e uma história de valores morais e sociais agonizantes.

Já no inicio do filme somos colocados no tempo-espaço da trama, uma cidade interiorana americana, Hartford, nos anos 50. Aquele típico lugar habitado por pessoas superficialmente “perfeitas”, com roupas deslumbrantes, sorrisos radiantes e vidas metódicamente bem organizadas. O casal Whitaker, Julianne Moore e Denis Quais, é bem esse tipo de família modelo. Ele é um executivo de sucesso e ela é seu alicerce social, daquelas mulheres que estão sempre a frente na organização de eventos chics e requintados sempre muito bem vistos no meio onde vivem. Mas os personagens de Haynes estão longe de serem fantoches vazios. Algo dentro de cada um deles grita e apodrece por dentro. É a agonia de estar preso num mundo tão perfeitamente enjoativo, tedioso, preconceituoso e de verdades indubitáveis tão bem fixados numa moral retrógrada.




Realmente algo fedia no reino e fedia demais!O que se esconde por trás de cada porta? De cada vida, de cada uma dessas pessoas, já que os Whitaker aqui são um meio de representação de uma sociedade em tal tempo (e perceber que esse tempo praticamente não mudou é decepcionante) A resposta caminha junto com a linha trágica que o filme segue, desejos obscuros e proibidos para as pessoas daquela época.



Enquanto Cathy cada vez mais se aproxima e começa uma amizade interessante com o jardineiro, detalhe negro, Frank vai lutando fervorosamente para sufocar e esconder seus desejos e a tendência homossexual. A partir daí sabemos que não há mais espaço para nada além de uma tragédia escrita e muito bem feita. Os Whitaker são colocados contra a parede literalmente. Vizinhos e amigas questionam o relacionamento da mulher com o jardineiro e a mulher vai cada vez mais se aproximando da verdade sobre o marido. São obrigados a olhar ao espelho e perceber que isso pode doer muito (acho que de todas as citações a Douglas Sirk essa seja a mais eficiente), ver a máscara desmoronando aos poucos. É o ponto alto de um filme grande.

Todd Haynes construí esse filme de uma maneira tão eficiente, que, como um bom diretor não deixou passar nada na idealização da época, desde os figurinos de Sandy Powell (que esse ano levou o Oscar pelo seu trabalho em The Young Victoria) à fotografia de Edward Lanchman, passada num outono de tons fortes vermelhos e laranja contrastando com o frio sutil do verde (mais uma referência a construção dos filmes de Sirk). E finalizando na trilha sonora de Elmer Bernstein que já tinha muita experiência com o tipo de trilha que o filme pedia.


Pra finalizar não há como não falar na homenagem que Todd Haynes fez a um dos maiores diretores do cinema melodramático, Douglas Sirk, tão objeto de chacota na sua época, considerado por muitos como um diretor menor que fazia apenas filmes chorosos para mulheres. Verdade é que Sirk se especializou e fez o melhor do gênero, mas poucos(gente que viria a revolucionar o cinema algum tempo depois como Godard e Truffaut) na época percebiam a grandiosidade crítica dos seus filmes. Verdade que foi se confirmando muitos anos depois.

Mas quando eu digo em homenagem é num sentido maior. Haynes não fez esse filme em nenhum momento para subestimar os trabalhos de Sirk, mas sim, mostrar com mão forte tudo que o mestre não poderia ter exposto aquela época escancaradamente. Longe do Paraíso remete diretamente a dois filmes de Sirk: Imitação da Vida e Tudo Que o Céu Permiete. No segundo temos uma história de uma viúva envolvendo-se com um jardineiro e no primeiro uma história de preconceito racial. Contando ainda que o maior intérprete dos filmes do Sirk tenha sido Rock Hudson, um homossexual enrustido, que, todos sabiam ser gay, mas disfarçavam. É aí que vem a sacada de Todd, mostra a vida perfeitamente idealizada desabando de maneira criticamente aberta e menos chorosa. Haynes não tinha intuito de corrigir nada em Sirk, ele apenas aproveitou a chance de realizar o sonho que o outro não teve oportunidade de fazer em sua época, dar um tapa violento na cara de uma sociedade tão hipócrita. E creio que funcionou, devido incomodo provocou certa aversão da platéia e isso se refletiu nos prêmios americanos mais comerciais. Na época de Sirk niguém queria olhar o próprio reflexo. 50 anos se passaram e esse temor ainda continua em alta. Uma pena, esse processo de “evolução”.

Júnior Cândido.